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sábado, 25 de dezembro de 2010

Síndrome de Asperger

   Asperger é, até os dias de hoje, um desafio. A Síndrome de Asperger é uma condição ainda pouco conhecida e de difícil diagnóstico, devido à dificuldade na padronização ou definição. O aumento de casos diagnosticados faz com que se pesquise mais sobre o assunto,mas sua cura ainda está distante. Atualmente, é considerada uma síndrome por apresentar um conjunto de sintomas que pode ter mais de uma origem.
   O termo “Autismo” foi usado pela primeira vez por Ernst Bleuler, em 1991, para descrever um dos sintomas de base da esquizofrenia, caracterizado pelo isolamento social. Os autores pioneiros na descrição do Autismo foram Leo Kanner (EUA),1943, e Hans Asperger (Áustria), 1944. Em seus trabalhos, ambos chamavam atenção para crianças que apresentavam características comuns relacionadas à forma particular de comunicação, à dificuldade de adaptação ao meio social, às estereotipias motoras e ao caráter enigmático e irregular das capacidades intelectuais.
  A Síndrome de Asperger, assim como outros quadros autísticos, tem sido definida como um transtorno evolutivo raro, caracterizado por um severo déficit no contato social, que surge desdea infância, persistindo até à idade adulta.
  Ao descrever o quadro, Hans Asperger chama atenção para crianças com uma alteração fundamental, manifestada através de seus comportamentos e modos de expressão, que gera dificuldades consideráveis e bem típicas na interação social. São eles:

  • a singularidade do olhar; a mímica facial pobre; a utilização da linguagem anormal e pouco natural; a invenção de palavras; a impulsividade em geral de difícil controle; dificuldade no aprendizado de alguns ensinamentos; os centros de interesse bastante pontuais; e a capacidade freqüentemente presente para a lógica abstrata;
  • a qualidade vocal é característica, usando palavras impróprias para a idade;
  • peculiaridades da linguagem não verbal como a falta de contato olho-olho e alterações de gestos, postura, labilidade de humor e pedantismo.
   Indivíduos com a Síndrome de Asperger percebem o mundo diferentemente de nós, diz o autor.
 Com freqüência, apresentam conflitos internos relacionados aos pensamentos, sentimentos e comportamentos convencionais, desenvolvendo uma forma particular de “estar no mundo”,adaptando-se a ele com manobras compensatórias, chegando a conseguir algum grau de independência e de relacionamento social na vida adulta.
   Na maior parte dos acometidos pela síndrome, a característica mais flagrante é a falta de interação social, compensada em alguns casos por uma originalidade particular na forma de pensar,que pode levar a capacidades excepcionais.
  A designação de Síndrome de Asperger tem sido empregada em diferentes situações, como sinonímia de autismo atípico ou residual,“autismo de bom prognóstico”,“autismo de alto funcionamento”, ou ainda para alguns indivíduos com outras formas de transtorno invasivo do desenvolvimento ou mesmo comoum transtorno independente do autismo. Na realidade, nenhum dos autores que se preocupa em estabelecer critérios diagnósticos para a Síndrome de Asperger foi categórico em defini-la como condição distinta do autismo, considerando-a como parte do transtorno do espectro autista (Schopler, 1985; Volkmar, Paul &Cohen, 1985; Wing, 1986).
  Nos tempos atuais,“Asperger” refere-se àqueles indivíduos que apresentam características autísticas, são inteligentes e apresentam aptidões lingüísticas aparentemente normais, mas que não preenchem todos os critérios necessários para que se caracterize um quadro autístico clássico (Klin, 1995). Apesar desses indivíduos apresentarem dificuldades na interação social, percebe-se que é no desenvolvimento da linguagem que ocorre a característica diferencial, pois na Síndrome de Asperger não seriam observados atrasos tão significativos no seu desenvolvimento.
  Após revisão dos critérios diagnósticos utilizados pela American Psychiatric Association (DSM-III; DSM-III R; CID 10e DSM-IV) observa-se, ainda nos dias de hoje, complexidade para o diagnóstico médico da Síndrome de Asperger, por ser baseado em descrições que não permitem conclusões quanto à sua etiologia. Conclui-se que uma classificação comum torna-se fundamental na compreensão e investigação diagnóstica desta e de outras patologias que fazem diagnóstico diferencial.
  Atualmente, os critérios usados como parâmetros de avaliação diagnóstica da Síndrome de Asperger são os do DSM lV(Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorder).
  Em relação às características da Síndrome de Asperger ou do “Autismo de Alto Funcionamento”, alguns autores as descrevem como crianças que apresentam, em geral:
  • grande capacidade intelectual, pois algumas chegam a ler por volta dos três ou quatro anos de idade, sem nunca terem sido ensinadas, dentre outros talentos;
  • a dificuldade na comunicação pode ocorrer pelo fato de algumas dessas crianças iniciarem a falar tardiamente, ocasionando um baixo limiar de tolerabilidade, tornando-se, em geral, irritados pela frustração de não conseguirem manifestar de pronto suas vontades;
  • nem sempre ocorre comprometimento de coordenação motora envolvendo grandes músculos, pois alguns conseguem se sobressair em esportes;
  • como características peculiares, essas crianças muitas vezes têm dificuldade para escrever usando lápis ou caneta, mas conseguem fazê-lo usando computadores ou máquinas de escrever;
  • costumam repetir exaustivamente a mesma situação, mas com uma diferença significativa em relação aos considerados autistas “clássicos”, porque se comunicam após terem assistido a um filme várias vezes, por exemplo;
  • esses indivíduos são considerados “esquisitos”, e têm grande dificuldade de interagir com os demais, no convívio social.
  Já a “Hiperlexia”, por definição da AHA-(Associação Americana de Hiperlexia), é uma síndrome observada em crianças que têm as seguintes características:
  • habilidade muito desenvolvida para ler palavras além do que seria esperado na sua idade cronológica, e/ou também uma intensa fascinação por números ou letras;
  • dificuldade significativa em entender e utilizar a linguagem verbal ou faltade habilidade no aprendizado não verbal;
  • dificuldade na interação social;
  • o sintoma mais importante é a grande habilidade para decodificar palavras impressas (geralmente entre os 18 e 24 meses de idade, os pais ficam surpreendidos com a habilidade da criança em ler letras e números);
  • não raro, por volta dos três anos de idade, as crianças vêem palavras impressas e as lêem, algumas vezes o fazem mesmo antes de terem aprendido a falar;
Quanto aos distúrbios de linguagem e de aprendizado daquelas crianças que falam (algumas crianças com hiperlexia não conseguem), muitas apresentam o seguinte padrão de linguagem:

  • tentativas de fala precoce são ecolálicas (tanto imediatas como retardadas);
  • boa memória auditiva para canções aprendidas mecanicamente, o alfabeto e números, e também uma boa memória visual;
  • compreensão de palavras isoladamente (principalmente substantivos) melhor do que a compreensão de sentenças;
  • anormalidades acentuadas na forma ou no conteúdo da fala,incluindo fala estereotipada e repetitiva, uso de reversões pronominais e idiossincrático de palavras ou frases;
  • redução na habilidade de iniciar ou manter uma conversação,apesar da fala gramaticalmente adequada (em alguns casos).
   Todas as crianças hiperléxicas parecem ter um reconhecimento visual de “palavras” que pode não ser relacionado ao reconhecimento de sinais verbais. Eliot e Needleman (1976) sugeriram a existência de uma capacidade inata de reconhecer uma palavra escrita como um símbolo lingüístico separado da palavra falada audível (MOUSINHO, 2001).
   Através das descrições realizadas, poder-se-ia enquadrar a hiperlexia como um subtipo de Asperger, correlacionando essa capacidade específica de leitura a outras apresentadas por pessoas coma Síndrome de Asperger, tais como eventual capacidade extraordinária para cálculos, memorização impressionante de mapas,estradas, bandeiras ou calendários, pelo menos no que se refere aos hiperléxicos com melhor desenvolvimento da linguagem.

Etiologia/Etiopatogenia

   As primeiras teorias etiológicas em relação ao autismo clássico descrito por Leo Kanner e outros autores baseavam-se na origem psicogênica, atribuindo-se a causa a déficits específicos no cuidado e na interação dos pais com a criança. 
   Historicamente, Ritvo (1976) foi um dos primeiros autores a tecer considerações sobre a etiopatogenia dos quadros autísticos como sendo uma desordem do desenvolvimento, causada por uma patologia do sistema nervoso central, além de salientar a importância do déficit cognitivo. Na realidade, nos dias de hoje,a maioria dos autores que se dedicam à investigação do autismo e da Síndrome de Asperger têm admitido sua heterogeneidade etiológica. Há evidências crescentes de que possa ser causado por uma variedade de problemas como seguem abaixo.
   A influência genética, por exemplo, tem sido demonstrada em recentes artigos de revisão (Folsten e Rutter, 1988; Smalley; Asarnow e Spence, 1988; Rutter e col., 1990; London, 1999), os quais evidenciam que há maior probabilidade de ocorrer autismo em gêmeos monozigóticos (MZ) do que em gêmeos dizigóticos (DZ).
   Os estudos revelam que, no primeiro caso, o índice de concordância varia em torno de 60%, enquanto que no caso de gêmeos dizigóticos, em torno de 5-10%, sendo semelhante ao que ocorre entre irmãos que não são gêmeos.
   Outros estudos dizem respeito a publicações relacionando as intercorrências pré, peri e pós-natais como possíveis etiologias do transtorno autístico.
   Em relação aos agentes infecciosos, por exemplo, há trabalhos que demonstram crianças autistas que no período pré-natal estiveram expostas ao vírus da rubéola, toxoplasmose, citomegalovirus, além de casos de encefalite herpética pós-natal e também relacionados ao uso de agentes químicos (talidomida, cocaína,álcool, chumbo) durante a gravidez.




Assistam: Mary and Max (Fabuloso filme baseado em fatos reais que aborda o tema de modo muito interessante ;))


sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Efeitos da Cocaína/Crack no Organismo

É uma substância extraída de uma planta existente na América do Sul, popularmente conhecida como coca (Erythroxylon coca).Pode ser consumida na forma de pó (cloridrato de cocaína), aspirado ou dissolvido em água e injetado na corrente sanguínea, ou sob a forma de uma base, que é fumada, o crack. Existe ainda a pasta de coca, um produto menos purificado, que também pode ser fumado, conhecido como merla.

Seu mecanismo de ação no SNC é muito semelhante ao das anfetaminas, mas a cocaína atua ainda sobre um terceiro neurotransmissor, a serotonina, além da noradrenalina e dadopamina. A cocaína apresenta também propriedades de anestésico local que independem de sua atuação no cérebro. Essa era, no passado, uma das indicações de uso médico da substância, hoje obsoleta.Seus efeitos têm início rápido e duração breve. No entanto, são mais intensos e fugazes quando a via de utilização é a intravenosa ou quando o indivíduo utiliza o crack.Efeitos do uso da cocaína:
• sensação intensa de euforia e poder;
• estado de excitação;
• hiperatividade;
• insônia;
• falta de apetite;
• perda da sensação de cansaço.

Tolerância e abstinência

Apesar de não serem descritas tolerância nem síndrome de abstinência inequívoca, observa-se freqüentemente o aumento progressivo das doses consumidas.Particularmente no caso do crack, os indivíduos desenvolvem dependência severa rapidamente, muitas vezes em poucos meses ou mesmo algumas semanas de uso.Com doses maiores, observam-se outros efeitos como irritabilidade, agressividade e até delírios e alucinações, que caracterizam um verdadeiro estado psicótico, a psicose cocaínica.Também podem ser observados aumento da temperatura e convulsões, freqüentemente de difícil tratamento, que podem levar à morte se esses sintomas forem prolongados. Ocorrem ainda dilatação pupilar, elevação da pressão arterial e taquicardia (os efeitos podem levar até a parada cardíaca por fibrilação ventricular, uma das possíveis causas de morte por superdosagem).

Fator de risco de infarto e Acidente Vascular Cerebral – AVC

Mais recentemente e de modo cada vez mais freqüente, têm-se verificado alterações persistentes na circulação cerebral em indivíduos dependentes de cocaína. Existem evidências de que o uso de cocaína seja um fator de risco para o desenvolvimento de infartos do miocárdio e acidentes vasculares cerebrais - AVCs em indivíduos relativamente jovens. Um processo de degeneração irreversível da musculatura (rabdomiólise) em usuários crônicos de cocaína também já foi descrito.



Veja efeitos de outras substâncias químicas em: Drogas: Classificação e efeitos no organismo

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Personalidade Borderline: No limite das emoções





Amor...

O amor é um animal selvagem
Ele te respira, ele te procura...
Ele se aninha sob corações partidos
E vai à caça quando há beijos e velas.
Ele chupa com força os seus lábios...
E cava túneis entre suas costelas.
Ele cai suavemente como neve.
Primeiro ele fica quente, então frio... por fim ele machuca.


Amor Amor
Todos só querem
te domar
Amor Amor
no final...:
Pego entre seus dentes


O amor é um animal selvagem
Ele morde e arranha e caminha em minha direção
Ele me segura com força com mil braços
E me arrasta para dentro de seu ninho de amor


Ele me devora completamente
E tenta me regurgitar depois de muitos anos
Ele cai suavemente como neve
Primeiro ele fica quente, então frio, por fim ele machuca


O amor é um animal selvagem
Você cai na armadilha dele
Ele te encara nos olhos...
Você fascinado quando a contemplação dele o atinge.

Amor, amor...


Por favor por favor me dê veneno.




Hemorrágica, intensa, devastadora, impulsiva... Viver no limite das emoções. Há quem goste e até admire essa filosofia de uma vida sem restrições, sem muitos recalques, "vivida até às últimas circunstâncias", por assim dizer. Mas quando essas características deixam de ser simples opções de vida e, aliadas a um caráter irresponsável (inclusive anti-social), passam a ser inerentes e patológicas ao seu portador?
O transtorno de personalidade Borderline é um misto dessa loucura por viver associado a, na verdade, um grande medo de se aprofundar em certos traços da vida. Incertezas, inseguranças, problemas amorosos, confrontos com a realidade e uma busca interminável por algo que provavelmente nunca irá alcançar são alguns dos seus dilemas. Os borderlines (chamaremos assim apesar da grande maioria ser do sexo feminino) constituem mais um tipo de transtorno que é mais comum do que se imagina e vivem em meio a um mundo completamente desestruturado, muitas vezes com uma história de instabilidade familiar. Cantoras como Edith Piaf, Maysa e, mais recentemente, dizem... Amy Winehouse são alguns dos mais seletos exemplos.

Depois de um levantamento bibliográfico na bireme, cheguei à conclusão de que é o PsiqWeb quem melhor resume de modo claro e acessível o tema, então vou deixar que as palavras da equipe falem por mim:


"Características do Ego e do Comportamento
Patologicamente podemos dizer que a pessoa portadora de Personalidade Borderline, embora seja bem menos perturbada que os psicóticos, são muito mais complexas que os neuróticos, embora não apresentem deformações de caráter típicas das personalidades sociopáticas. Na realidade, o Borderline tem séria limitação para usufruir as disponibilidades de opção emocional diante dos estímulos do cotidiano e, por causa disso, pequenos estressores são capazes de enfurecê-lo.
São indivíduos sujeitos a acessos de ira e verdadeiros ataques de fúria ou de mau gênio, em completa inadequação ao estímulo desencadeante. Essas crises de fúria e agressividade acontecem de forma inesperada, intempestivamente e, habitualmente, tem por alvo pessoas do convívio mais íntimo, como os pais, irmãos, familiares, amigos, namoradas, cônjuges, etc.
Embora o Borderline mantenha condutas até bastante adequadas em grande número de situações, ele tropeça escandalosamente em certas situações triviais e simples. O limiar de tolerância às frustrações é extremamente susceptível nessas pessoas.
Este curto-circuito agressivo expresso pelo Borderline, sob forma de crise, pode desempenhar várias funções psicodinâmica, como por exemplo, aliviar o excedente de tensão interna, impedir maior conflito e frustração, ressaltar a presença do paciente, ainda que de forma desagradável e ineficaz, melhorar a auto-afirmação, obrigar o ambiente a reconhecer sua importância, ainda que para se lhe opor ou confrontar.
O Borderline também está sujeito a exuberantes manifestações de instabilidade afetiva, oscilando bruscamente entre emoções como o amor e ódio, entre a indiferença ou apatia e o entusiasmo exagerado, alegria efusiva e tristeza profunda. A vida conjugal com essas pessoas pode ser muito problemática, pois, ao mesmo tempo em que se apegam ao outro e se confessam dependentes e carentes desse outro, de repente, são capazes de maltratá-lo cruelmente.
Os indivíduos com Transtorno da Personalidade Borderline se esforçam freneticamente para evitarem um abandono, seja um abandono real ou imaginado. A perspectiva da separação, perda ou rejeição podem ocasionar profundas alterações na auto-imagem, afeto, cognição e no comportamento. O Borderline vive exigindo apoio, afeto e amor continuadamente. Sem isso, aflora o temor à solidão ou a incapacidade de ficar só, em presença de si mesmo.
Esses indivíduos são muito sensíveis às circunstâncias ambientais e o intenso temor de abandono, mesmo diante de uma separação exigida pelo cotidiano e por tempo limitado, são muito mal vivenciadas pelo Borderline. Esse medo do abandono está relacionado a uma grande intolerância à solidão e à necessidade de ter outras pessoas consigo. Seus esforços frenéticos para evitar o abandono podem incluir ações impulsivas, tais como comportamentos de auto-mutilação ou ameaças de suicídio.
A tendência a alguma forma de adição, como o álcool, remédios, drogas, ou mesmo o trabalho desenfreado, o sexo insistentemente perseguido, o esporte, alguma crença, etc., refletem uma busca desenfreada de "um algo mais" que lhe complete e lhe dê sossego.
Segundo Marco Aurélio Baggio, quem melhor descreve o Ego desses pacientes, os Borderlines são pouco capazes de se empenharem numa tarefa com persistência e acuidade. Desistem do esforço e circulam em torno daquilo que é preciso fazer mas não fazem. Em relação ao contacto inter-pessoal, eles têm uma tendência a atacar o outro do qual dependem, como forma de camuflar a grande necessidades de dependência. São habilidosos em estimular o outro a lhes propiciar aquilo que precisam, mas recebem tudo o que lhe fazem como quem nada deve.
A personalidade do Borderline é uma peça de teatro onde os atores coadjuvantes estão sempre esperando ele, o ator principal. Trata-se de um ego que não tolera o vazio, a separação, a ausência, não sabe superar com equilíbrio os conflitos.

Características de Personalidade e Comportamento
Os indivíduos com Transtorno da Personalidade Borderline têm um padrão de relacionamentos instável e, ao mesmo tempo, intenso. Na vida a dois, eles podem desenvolver intenções de protetores ou amantes já no primeiro ou no segundo encontro, exigir que passem muito tempo juntos e compartilhem detalhes extremamente íntimos ainda na fase inicial de um relacionamento. Essas pessoas podem sentir empatia e carinho por outras pessoas, entretanto, tais sentimentos são frutos exclusivos da expectativa de que a outra pessoa estará lá para atender suas próprias necessidades de apoio, carinho e atenção.
Pode haver no Borderline, uma rápida passagem da idealização elogiosa para sentimentos de desvalorização, por achar que a outra pessoa não se importa o suficiente com ele, não dá o bastante de si, não se mobiliza o suficiente. Portanto, são insaciáveis em termos de atenção. Eles são inclinados a mudanças súbitas em suas opiniões sobre os outros.
A inconstância do Borderline se observa também em relação ao juízo que tem de si mesmo e de sua vida. Ele pode ter súbitas mudanças de opiniões e planos acerca de sua carreira, sua identidade sexual, seus valores e mesmo sobre os tipos de amigo ideal.
Os indivíduos com este transtorno exibem impulsividade em áreas potencialmente prejudiciais para si próprios, tais como nos esportes, nos jogos de azar, no consumo de tabaco, álcool, drogas, etc. Eles podem jogar, fazer gastos irresponsáveis, comer em excesso, abusar de substâncias, engajar-se em sexo inseguro ou dirigir de forma imprudente. As pessoas com Transtorno da Personalidade Borderline podem apresentar comportamento, gestos ou ameaças suicidas ou comportamento auto-mutilante .
O suicídio completado costuma ocorrer em 8 a 10% desses indivíduos impulsivos, e os atos de auto-mutilação também impulsivos, como por exemplo, cortes ou queimaduras também são comuns. Esses atos auto-destrutivos geralmente são precipitados por ameaças de separação ou rejeição, por expectativas de que assumam maiores responsabilidades ou mesmo por frustrações banais.
Os indivíduos com Transtorno da Personalidade Borderline podem apresentar instabilidade afetiva, devido a uma acentuada reatividade do humor, como por exemplo, euforia ou depressão (disforia) episódica, irritabilidade ou ansiedade, em geral durando apenas algumas horas. O humor disfórico (euforia ou depressão) dos indivíduos com Transtorno da Personalidade Borderline muitas vezes é acompanhado por períodos de raiva, pânico ou desespero.
Essas pessoas ficam facilmente entediadas, não aceitam bem a constância ou mesmo a serenidade, e podem estar sempre procurando algo para fazer. Os sentimentos agressivos dessas pessoas não costumam ser dissimulados e eles freqüentemente expressam raiva intensa e inadequada ou têm dificuldade para controlar essa raiva. Eles podem exibir extremo sarcasmo, persistente amargura ou explosões verbais. Por outro lado, essas expressões de raiva freqüentemente são seguidas de vergonha e culpa e contribuem para o sentimento de baixa auto-estima.

Curso e Prevalência
O Transtorno da Personalidade Borderline é diagnosticado predominantemente em mulheres, as quais compões cerca de 75% dos casos. Quanto à prevalência, estima-se em cerca de 2% da população geral, ocorrendo em cerca de 10% dos pacientes de consultórios psiquiátricos e em cerca de 20% dos pacientes psiquiátricos internados. Entre os portadores de Transtornos da Personalidade em geral, a prevalência do Transtorno da Personalidade Borderline varia de 30 a 60%.
O curso do Transtorno da Personalidade Borderline é instável, começando esse distúrbio no início da idade adulta, com episódios de sério descontrole afetivo e impulsivo. O prejuízo resultante desse transtorno e o risco de suicídio são maiores nos anos iniciais da idade adulta e diminuem gradualmente com o avanço da idade. Durante a faixa dos 30 e 40 anos, a maioria dos indivíduos com o transtorno adquire maior estabilidade em seus relacionamentos e funcionamento profissional.
Também se sabe que o Transtorno da Personalidade Borderline é cerca de cinco vezes mais freqüente entre parentes biológicos em primeiro grau também com o transtorno do que na população geral."


Mais informações sobre quadro clínico, tratamento e outros, vide em:


Ou, nos seguintes artigos que tratam o tema de modo mais complexo, porém mais a fundo, inclusive com alguns casos clínicos:

Os estados-limite nos trabalhos psicanalíticos franceses
Adesão ao tratamento clínico no transtorno de personalidade borderline
Vínculos afetivos de adolescentes borderline e seus pais






"Nada de nada...

Não lamento nada...
Pois, minha vida, pois, minhas alegrias
Hoje, começam com você!"

(Edith Piaf - Rien de Rien)

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

DEMÊNCIAS

[...] Com a luz os sonhos adormecem... o passado não é senão um sonho... de resto, nem sei o que não é sonho. Se olho para o presente com muita atenção, parece-me que ele já passou... o que é qualquer cousa? Como é que ela passa? Como é por dentro o modo como ela passa?... (Fernando Pessoa - O Marinheiro)


HISTÓRIA


• O nome Demência é derivado do latim de mentis (perder a mente).

• Na Mitologia Grega é visto o mito de Lethe, no qual existiriam duas fontes: Mnemosyne, da memória, e Lethe, do esquecimento, da qual beberiam os mortos para esquecer sua vida terrena e também as almas que voltariam à Terra para esquecer o mundo subterrâneo dos mortos.

• Datam de 1787 as primeiras descrições demenciais mais parecidas com conceitos utilizados na atualidade.

• Em 1816, a demência foi diferenciada da deficiência mental congênita.

• A partir de 1820, é visto uma maior produção científica a respeito de demência, com separação entre demências com lesões vasculares e puramente senis.

• Em 1907, Alois Alzheimer, psiquiatra e anatomopatólogo alemão, publica o caso de uma mulher de 51 anos, falecida após cinco anos de evolução de um quadro de demência com alucinação.

• Em 1910, Kraepelin inclui a demência pré-senil em seu Tratado de Psiquiatria e inclui as demências senis nos itens de Loucuras da Idade Involutiva.

• Em 1911, Emmanuel Régis, médico francês assíduo leitor de Freud, faz a diferença entre demência não inicial e essencial.

• Atualmente as demências estão incluídas na décima revisão da Classificação Internacional de Doenças (CID – 10) nos itens de F00 a F09 de denominação Transtornos mentais orgânicos, inclusive os sintomáticos.



EPIDEMIOLOGIA

Doença de Alzheimer

• Prevalência de aproximadamente 1,5% em torno dos 65 anos até 30%, em média, ao redor dos 80 anos nos países desenvolvidos.

• Nos Estados Unidos, 3% a 11% das pessoas com 65 anos ou mais, e 25% a 47% daquelas com mais de 85 anos têm demência.

• A partir dos 65 anos, sua prevalência dobra a cada cinco anos.

• Entre 60 e 64 anos apresenta prevalência de 0,7%, passando por 5,6% entre 70 e 79 anos, e chegando a 38,6% nos nonagenários.



Demais demências

• A Demência Vascular é a segunda causa mais freqüente de demência em países ocidentais, correspondendo a cerca de 10% dos casos, com dados de prevalência encontrados entre 1,2% a 4,2% em indivíduos acima de 60 anos.

• A Demência na doença de Pick (Fronto-temporal) responde por 10% a 15% dos casos de demência degenerativa, ocorrendo principalmente após os 40 anos de idade, com igual incidência em homens e mulheres7.

• A Demência na doença de Creutzfeldt-Jakob possui incidência anual de 1:1 milhão de pacientes, evoluindo para óbito entre seis meses e um ano. Acomete pacientes nas diversas faixas etárias, entretanto com maior incidência entre a 5ª e 6ª décadas.

• Na Demência na doença de Huntington, a prevalência de indivíduos afetados com essa doença tem uma distribuição relativamente homogênea em todo mundo variando de 5 a 10 casos por 100.000 indivíduos.

• A Demência pelo vírus HIV tem incidência observada em 30% das pessoas que já haviam desenvolvido AIDS, unido a outras alterações do SNC.

• A Demência com corpos de Lewy corresponde à terceira causa mais freqüente de demência em estudos de autópsias realizados em vários centros de pesquisa e acomete cerca de 20% dos pacientes com demência.

ETIOLOGIA E FISIOPATOLOGIA

Doença de Alzheimer (DA)

• O estabelecimento da DA deve-se à junção de eventos genéticos e ambientais.

• Verifica-se uma atrofia cortical, aumento dos sulcos cerebrais e do tamanho ventricular.

• O cérebro apresenta uma perda neuronal com acúmulo de placas neuríticas, degeneração granulovacuolar e angiopatia amiloidéia.

• As alterações patológicas mais severas são produzidas no lobo temporal medial.

• Na DA há hipoatividade de determinados neurotransmissores como a acetilcolina e a noradrenalina.

Demais demências

• Na Demência Vascular, os vasos afetados são comumente os de pequenos e médios calibres que ao infartarem produzem lesões múltiplas no parênquima cerebral. O termo se refere a qualquer demência causada por doença cerebrovascular.

• A Demência na doença de Pick (Fronto-temporal) é marcada por disfunção dos lobos frontais e temporais, geralmente associada à atrofia dessas estruturas, e relativa preservação das regiões cerebrais posteriores. As áreas afetadas caracterizam-se por perda de neurônios, gliose e massas de elementos citoesqueléticos (corpos de Pick).

• A Demência na doença de Creutzfeldt-Jakob trata-se de uma enfermidade infecciosa e invariavelmente fatal que atinge o sistema nervoso central e caracteriza-se por quadro demencial rapidamente progressivo e envolvimento focal variável do córtex cerebral, gânglios da base, cerebelo, tronco cerebral e medula espinhal.

• A Demência da doença de Huntington é transmitida hereditariamente como uma doença autossômica dominante de penetrância completa. A primeira alteração neuropatológica da DH é a perda de neurônios na parte paraventricular medial do núcleo caudado e no putâmen dorsal com progressão para alterações microscópicas referentes à depleção neuronal e a astrocitose fibrilar.

• O desenvolvimento de Demência pelo vírus HIV vem acompanhado de anormalidades parenquimais em Ressonâncias Magnéticas.

• Há uma forte influência genética na etiologia da Demência com Corpos de Lewy. A formação de corpos de Lewy está associada à perda neuronal nos sistemas dopaminérgico nigroestriatal e colinérgico basal frontal. Os CL são encontrados nos núcleos subcorticais e em regiões corticais cerebrais.



QUADRO CLÍNICO E DIAGNÓSTICO

Doença de Alzheimer (DA)

• A DA é caracterizada por alterações cognitivas e comportamentais, com preservação do funcionamento motor e sensorial até as fases mais avançadas da doença.

• O primeiro sintoma da DA é usualmente o declínio da memória, sobretudo para fatos recentes (memória episódica) e desorientação espacial.

• A instalação dos sintomas ocorre de forma insidiosa, com piora lentamente progressiva.

• Alterações de linguagem (principalmente anomia), distúrbios de planejamento (funções executivas) e de habilidades visuais e espaciais surgem com a evolução do quadro.

• Sintomatologia psicótica (como idéias delirantes, sobretudo de caráter persecutório, e alucinações) é habitualmente mais comum nos pacientes mais idosos.

• O diagnóstico clínico da DA se baseia na observação de quadro clínico compatível e na exclusão de outras causas de demência por meio de exames laboratoriais e de neuroimagem estrutural.

• O diagnóstico definitivo de DA só pode ser feito mediante a análise histopatológica do tecido cerebral post-mortem.

Demais demências

• A apresentação clínica da Demência Vascular (DV) depende da causa e localização do infarto cerebral. O diagnóstico de DV é sugerido na presença de uma tríade: fatores clássicos de risco cerebrovascular, manifestações clínicas de episódios cerebrovasculares prévios e a existência do próprio quadro demencial.

• Na Demência na doença de Pick evidenciam-se, clinicamente, no estágio inicial, transtornos de personalidade, condutas anti-sociais e desinibição. Num momento posterior, aparecem transtornos da linguagem, com anomias, estereotipias e alterações na compreensão. Os critérios diagnósticos centrais são: começo insidioso e progressão gradual; deterioração precoce da conduta interpessoal e no manejo da conduta pessoal; embotamento emocional precoce e perda precoce do insight.

• Os aspectos clínicos da Demência na Doença de Creutzfeldt-Jakob compreendem um quadro de demência associada a manifestações comportamentais, extrapiramidais, cerebelares e mioclonia.

• Na doença de Huntington (DH) há alterações no controle motor e emocional, prejuízo da habilidade cognitiva e o aparecimento de movimentos involuntários, classicamente a coréia. O diagnóstico da DH pode ser realizado baseado na presença das manifestações clínicas de disfunção motora progressiva, envolvendo movimentos voluntários e involuntários, acompanhados de distúrbios mentais como déficit cognitivo, distúrbios afetivos e alterações de personalidade em pacientes que apresentam uma história familiar positiva de DH.

• A Demência pelo vírus HIV tem um início subagudo e caracteriza-se por apatia, dificuldade de concentração, prejuízo de memória verbal e funções executivas, disfunção motora e distúrbios de comportamento. Com a progressão pode haver ataxia, disartria, mutismo, delírios e alucinações visuais.

• As características clínicas da Demência com Corpos de Lewy (DCL) são: início gradual da demência com proeminente déficit de atenção ou estados confusionais agudos e presença de sintomas parkinsonianos. Como critério diagnóstico, ficou definido que, para diagnóstico provável de DCL, são essenciais a presença de duas das três características, enquanto, para diagnóstico possível, é necessária a presença de somente uma das características.



CURSO E PROGNÓSTICO

• As demências são patologias que podem ter início súbito ou insidioso, e na maioria das vezes cursam com deteriorização progressiva, esta segue por um período médio de 5 a 10 anos.

• O curso também pode ser variável sendo do tipo progressivo, o que ocorre na maior parte dos casos, estático ou regressivo.

• O prognóstico depende da etiologia da demência, de quão cedo é feito seu diagnóstico e do tipo e início do tratamento adotado.

• As demências podem ser classificadas como reversíveis, que possuem melhores prognósticos, e normalmente possuem causa sistêmica como a demência medicamentosa, vascular e traumática; e demências irreversíveis, possuem prognóstico mais sombrio e tem como causas primárias processos degenerativos e/ou atrofiantes cerebrais, entre elas estão as demências de Pick, Alzheimer, Huntington.

• No caso da Doença de Alzheimer, tem-se uma evolução relativamente lenta, porém com prognóstico ruim, e o óbito ocorre cerca de 15 anos após o início. A ocorrência de manifestações psicóticas se correlaciona com curso clinico mais desfavorável.

TRATAMENTO

• O tratamento dos sintomas das demências requer cuidados específicos a fim de melhorar a qualidade de vida tanto do doente quanto do seu cuidador.

• As classes de fármacos mais utilizadas são os antipsicóticos, os benzodiazepínicos, os antidepressivos e os anticonvulsivantes.

• É importante ter em mente que nas demências vários sintomas podem coexistir, e dessa forma deve-se optar pela medicação que o controle da forma mais abrangente, evitando a polifarmácia.











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Por: Ana Carolina Santos, Edla Cavalcanti, Gabriela Gama, Jaqueline Silva.